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| (Foto: Reprodução) |
Para uns, herói, para outros, bandido sanguinolento. Figura ambígua, Lampião, o “Rei do Cangaço”, está presente no imaginário popular nordestino. Não por acaso, Lampião é considerado um dos primeiros estilistas brasileiros de renome. |
| Lampião costura em máquina Singer - (Foto: Reprodução/Benjamin Abrahão, 1936) |
Há controvérsias acerca da data de seu nascimento: a literatura de cordel cita a data contida em sua Certidão de Batismo, 4 de junho de 1898; outros instituíram seu nascimento em 7 de julho (Dia do Xaxado) de 1897; mas, em entrevista ao escritor Leonardo Mota, em Juazeiro do Norte, em 1926, Virgulino Ferreira da Silva afirmou que a data de seu nascimento é 12 de fevereiro de 1900.
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| (Foto: Reprodução) |
Nascido na fazenda de seus pais em Vila Bela (atual município de Serra Talhada), Pernambuco, era o terceiro filho de oito irmãos. Cedo demonstrou habilidades multifacetadas: cuidava do gado e, aos 14 anos, era considerado mestre no ofício da alfaiataria e do artesanato de couro. Diferentemente da grande maioria dos habitantes de Vila Bela, Virgulino era alfabetizado.Trabalhou como artesão até os 21 anos, antes de jurar vingança ao assassinato de seus pais e tornar-se cangaceiro.
Cangaço é a denominação da luta armada, surgida da pobreza e ausência de perspectivas sociais, no Sertão nordestino. Proeminente do século XVIII a primeira metade do século XX, o Cangaço era constituído por bandos justiceiros, munidos de um elaborado aparato bélico.
Alguns bandos atuavam de maneira política como expressão de poder de proprietários de terras; outros, na guarda de propriedades rurais. Já os bandos independentes (como o bando de Lampião) possuíam características de banditismo: cometiam atrocidades, invadiam cidades, estupravam coletivamente, arrancavam olhos, sequestravam crianças, assaltavam propriedades e estabelecimentos.
Acredita-se que o apelido Lampião tenha se dado porque, quando Virgulino matava alguém, a ponta do seu fuzil brilhava como um lampião.
Até o ano de 1928, não era permitida a presença de mulheres no bando. Somente após conhecer Maria Bonita, sua companheira, o cangaceiro mudou de ideia. Depois de Maria Bonita, outras mulheres passaram a integrar o Cangaço.
As mulheres participavam significativamente de ações do grupo, porém não tinham função específica. Não cozinhavam. E, da mesma maneira, não costuravam, pois o bando possuía exímios costureiros, como o cangaceiro Luiz Pedro.
Aliás, a habilidade com a agulha era um dos critérios utilizados por Lampião na hora de integrar novos membros ao bando. Após Lampião e seus companheiros serem degolados em ação militar, as cabeças foram expostas ao lado de importantes signos para o grupo, dentre eles, duas máquinas de costura Singer. |
| Cabeças dos cangaceiros, dentre eles Lampião e Maria Bonita, expostas na escadaria da Prefeitura do município de Piranhas, Alagoas, em 1938. Ao fundo, duas máquinas de costura Singer pertencentes ao grupo. - (Foto: Reprodução) |
A vaidade granjeou ao cruel “Rei do Cangaço” o título de metrossexual, e suas preferências estéticas influenciavam o comportamento e o visual de seus discípulos: contra o calor da caatinga, os cangaceiros costumavam tomar verdadeiros banhos de perfume dos quais não escapavam nem os cavalos, e Lampião tinha preferência pelos melhores perfumes franceses, roubados durante assaltos a casas ricas.
Lampião utilizou-se de suas habilidades como alfaiate e artesão na confecção do “liforme” (uniforme) de cangaceiro: o casaco, idealizado por Lampião, era confeccionado na cor azul acinzentado, a favorita do líder. Especula-se que Lampião teria sido inspirado a criar o chapéu de couro de abas quebradas, ornamentado com bordados, crucifixos e estrelas, após ler uma biografia de Napoleão Bonaparte.
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| Lampião - (Foto: Reprodução/Livro: "Lampião... era o cavalo do tempo atrás da besta da vida - Uma Saga em Quadrinhos por Klévisson") |
Os cabelos eram compridos. Virgulino deixou-os crescer em sinal de luto pela morte de seu irmão, e nunca mais os cortou. Os lenços coloridos, da mais pura seda inglesa, contrastavam com o tom acinzentado das roupas. O modelo de calça mais utilizado era o culote, com cintura alta, pois facilitava os movimentos e permitia agilidade na hora de correr. As perneiras eram feitas em couro, enfeitadas com ilhoses e fechadas por uma fivela nas canelas. Foi projetada para proteger de espinhos durante as andanças pelos áridos planaltos do Sertão.
Os inúmeros bolsos conferiam sentido utilitário à indumentária, e eram feitos para guardar utensílios de grande importância, como o cantil. Os cinturões, ricamente bordados, eram idealizados para guardar o punhal, apetrecho bélico cuja lâmina chegava a medir 80 cm. O cabo do punhal era ornamentado com anéis de ouro. No “liforme” de cangaceiro, ilhoses eram usados em abundância.
As bolsas (também conhecidas como bornais) remetem à presença da mulher no Cangaço: eram confeccionadas, na grande maioria das vezes, por Dadá, companheira de Corisco, o “Diabo Loiro” (o segundo mais famoso do bando, depois de Lampião). Em entrevista ao historiador Frederico Pernambucano de Mello, Manoel Dantas, um dos subchefes de Lampião, afirmou que o cangaceiro e sua mulher, Maria Bonita, desenhavam croquis de ilustrações para serem bordadas nos bornais e nas roupas. Os bornais eram trabalhados em motivos florais e arabescos.
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| Vestido e bornal de Maria Bonita - (Foto: Reprodução) |
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| Lampião costura em máquina Singer - (Foto: Reprodução/Benjamin Abrahão, 1936) |
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| Maria Bonita - (Foto: Reprodução) |
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| Outras mulheres no Cangaço: Inhacinha, do bando do cangaceiro Gato - (Foto: Reprodução) |
Nestas gravações, realizadas entre 1936 e 1937, o fotógrafo Benjamin Abrahão capta preciosos registros de Lampião e seu bando, em combates e intimidades. Em um dos momentos, uma das mulheres do bando aparece costurando em uma das máquinas Singer do grupo. Em outro momento, Maria Bonita enfeita-se com inúmeros colares e sorri para a câmera.
Na década de 1970, a estilista Zuzu Angel apropriou-se da estética do Cangaço para a criação de sua moda genuinamente brasileira.
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| Criações de Zuzu Angel - Década de 1970 - (Foto: Reprodução) |
Na atualidade, o artesão cearense Espedito Seleiro, inspirado pelas histórias de seu pai (vaqueiro e seleiro, criador das alpercatas de Lampião e Maria Bonita), recria a estética do Cangaço: mestre no artesanato de couro, suas bolsas e sandálias tornaram-se artigos de passarela, exposição e cinema (é ele quem assina as peças de Marcos Palmeira no filme "O Homem que Desafiou o Diabo").
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| Sandálias Espedito Seleiro - (Foto: Reprodução) |
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| Espedito Seleiro - (Foto: Reprodução) |
O estilista Ronaldo Fraga, engajado na promoção do pensamento de moda como cultura e identidade, inspira-se nos sertões e manifestações artísticas nacionais: em seu desfile da coleção de Inverno 2014, apresentado na SPFW, predominam peças em couro e tricô, produzidas artesanalmente. A estética de Lampião é recriada em cinturões de Érika Marent, bolsas de Rogério Lima, sapatos de sola quadrada e lenços. Na cenografia, cactos gigantes de Renato Imbroisi.
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| Ronaldo Fraga/Inverno 2014 - SPFW - (Foto: Reprodução) |
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| Ronaldo Fraga/Inverno 2014 - SPFW - (Foto: Reprodução) |
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| Ronaldo Fraga/Inverno 2014 - SPFW - (Foto: Reprodução) |
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| Ronaldo Fraga/Inverno 2014 - SPFW - (Foto: Reprodução) |
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